sábado, 19 de fevereiro de 2011

Poesia nas noites de sábado


Se eu não puder mais te alcançar, teu corpo de sol, tua alma e tua utopia, saiba que a culpa são as minhas mãos crucificadas. E, se puder, perdoe os golpes, o frio, a sêde, a ofensa e a zombaria.

A cruz não é maior do que as minhas desculpas e o meu eterno medo de ficar contra o tempo, os templos e as tempestades. Eu sou um filho bastardo do tempo e da liberdade, porque não tive a coragem de libertar minha alma e a minha revolução.

Lázaro foi mais livre do que eu, porque o seu túmulo nunca o sepultou, apenas guardava a sua alma insatisfeita e protegia o seu corpo dos vermes, que vendem a alma humana em troca de vícios.

É que minhas mãos vivem pregadas na usura e na ganância, eu não sei repartir os meus bens e sequer consigo seguir o caminho do sol. Minhas vontades se juntam às vontades dos poderosos e os mendigos se ressentem da minha ausência.

Cada Jerusalém que se perde é um abismo que se abre na alma dos justos e a minha paixão cada dia fica menor e mais fria. E sequer eu compreendo como o meu coração se perdeu entre os labirintos do ouro, do egoísmo e da vida que não reparte, não compartilha, não ama.

Preciso voltar ao túmulo de Lázaro e ver se encontro pelo menos o manto da minha ressurreição, porque os cães vadios da planície devoraram minha carne indecente e repartiram os meus ossos, entre a ribanceira, a chuva e as enchentes.

Ainda há tempo de encontrar a luz, a clareira de sol que a humanidade guardou dos carrascos e dos psicopatas da honra, porque uma criança dorme nos penhascos, enquanto a lua não ilumina meus olhos de espera.

Sei que a minha crucificação não foi a vontade dos deuses, mas uma artimanha dos mais perversos demônios da condição humana e de seus eternos sacrifícios. Por isso eu acredito ainda na humanidade e nos seus incômodos desejos.

Vou construir templos e túmulos, porque um não vive sem o outro e a eternidade é um suplício na alma dos pecadores. E cada desejo insatisfeito torna-se uma ferida nas asas dos anjos e um conselho nos livros dos deuses.

De cada túmulo traremos um Lázaro e em cada sepulcro guardaremos uma veste e uma semente. Então cantaremos aos deuses da chuva e da fertilidade, aos anjos eternos da fraternidade e da abundância.

Não dormiremos mais ao relento e as pedras não nos enganarão como se fossem travesseiros, porque os pássaros do céu se adornam para acolher a lua, enquanto os homens se matam por uma mulher, um abrigo, um pedaço de pão.

Guardaremos os oceanos dentro de uma única mão, porque a humanidade será capaz de acolher, de repartir, de amar. E meus sepulcros nunca mais se fecharão, porque dentro deles dormirão todas as almas dos justos.

Assim virâo o novo céu e a nova terra, como canção e como chuva forte, porque o homem nunca será derrotado pela morte que vem da alma doente de cada demônio que não aceita o perdão e a partilha.

Seremos como meninos de chuva e homens de sal e deixaremos sumir na tempestade as maldades humanas e todas as indecências. Seremos homens lutando para ser homens livres.

Um comentário:

Terra Náuas disse...

Tua coragem derramada em poesia brinda a alma daqueles que ainda lutam...